Quarta-feira, Março 31, 2004

Eu concorro, mas não votem em mim!

"Estou contra o sistema que nos governa e consegui encontrar o instrumento por excelência de contestação: o voto em branco", afirmou Saramago, logo depois de ter dito que lhe daria um "gozo infinito" que, num próximo acto eleitoral em Portugal, se atingisse os 20 por cento de votos em branco.

"A minha presença nessa lista é simplesmente - e repito simplesmente - uma expressão de fidelidade", disse o candidato comunista, reconhecendo que "há uma contradição formal".

Mais democracia

Quem não ouviu o debate tem aqui um resumo de 30 minutos. Vale a pena.

Quando me encontro sempre sem poesia,
do ritmo ouvido o cadenciar perfeito
em que as palavaras passam como um dia
que é fluido e pálido, gelado e estreito,

sempre uma voz, que eu antes não ouvia,
me preenche o espaço entre o destino e o leito
de fogo e de cristal em que me deito
na música sem dor nem alegria.

Alguém que fui ou não cheguei a ser,
que alguém não teve tempo de viver
na ondulação do transitório acaso,

é por acaso que em mim próprio escuto,
qual do vazio ocasional refuto
a vacuidade inane do seu vaso.

Jorge de Sena

Terça-feira, Março 30, 2004

Ainda sobre a democracia

A democracia não é fácil. E exige carácter, seriedade e responsabilidade. De todos aqueles que participam no jogo democrático. Há meses que o SEF e a Polícia ameaçam fazer greve durante o Euro 2004. Ciclicamente, voltam a acenar com a ameaça. Não quero fazer qualquer juízo de mérito sobre os direitos de que se arrogam. Concedo com facilidade que tenham razão em reivindicá-los. No entanto, simplesmente parece-me que começa a ser calcada com insistência a ténue linha da chantagem política.

Segunda-feira, Março 29, 2004

Amigo Nande:

É óbvio que não é inútil ouvir o que as pessoas têm a dizer, é óbvio que para bem da consciência democrática de um país é fundamental que as pessoas não se demitam das responsabilidade que têm em se relacionarem criticamente com os poderes do Estado. Se assim não fosse, parece-me que as coisas não teriam sentido. Não era isso que queria que meu texto transmitisse. Era precisamente o contrário: defender a intervenção consciente e responsável das pessoas na vida democrática da sociedade.
Vamos por partes.

1. Em relação à sentença, como tu bem sabes, a tarefa do juiz Nuno Melo era encontrar no processo uma ou mais pessoa(s) física(s) às quais, a título de dolo ou negligência, pudesse ser imputada a responsabilidade pelo facto do pilar da ponte ter ruído e provocado a morte a 59 pessoas. E daí, pronunciá-las e levá-las a julgamento. Aquilo que ele fez foi, com base em relatórios periciais, concluir que não era possível imputar nenhum tipo de culpa no acidente a qualquer um dos elementos arguidos no processo, na medida em que o braço último e imprevisível a empurrar o pilar da ponte para o meio do rio tinham sido as cheias anormais dos anos 2000-2001. A decisão começa por ser juridicamente criticável, como todas. Por aquilo que li até agora, entre aprovações e desaprovações prevalece junto dos entendidos a tese de que se trata da “decisão cientificamente mais correcta, mas mais injusta”. Penso eu que foi sob o ponto de vista estritamente jurídico que o Dato interveio, na avaliação da decisão e na sua crítica, mas apenas consignado ao debate sobre o seu mérito jurídico.
Agora, muito importante: a decisão jurídica não se esgota em si mesma, não é um sistema fechado, não existe para si própria, deve reflectir uma realidade, relacionar-se com ela, integrar-se. E é neste juízo de integração que surge a tua crítica, como surge a minha crítica, como deve surgir a nossa crítica, à qual o Dato certamente não se opõe.

2. Escreve ontem o António Barreto que se deve recordar para a posteridade aquilo que o juiz Nuno Melo diz sobre o facto de não competir aos tribunais avaliar a responsabilidade política. Permite-me a preguiça intelectual de não lapidar a ideia e de me limitar a citá-lo, mas parece-me tratar-se de um raciocínio bem construído e que sintetiza aquilo que estamos a discutir:
“Esta ideia traduz um velho problema da justiça portuguesa: apenas dois tipos de responsabilidade são conhecidos, a criminal e a política. Esta última pertence ao eleitorado, aos partidos e aos órgãos propriamente políticos. Enquanto a primeira é da competência dos tribunais. Acontece que há mais tipos de responsabilidade. A negligência, a omissão, o engano ou o erro, a falta de meios, a desorganização, a incapacidade de previsão, o não cumprimento dos procedimentos administrativos e técnicos e a imprevidência são fenómenos que, nas instituições e na vida pública, são de difícil equiparação a crime (muito menos a crime com dolo, como foi alegado no caso de Leonor Beleza), mas que devem ser minuciosamente apurados, a fim de corrigir o que o deve ser, afastar incompetentes e reformar regras e leis. Pode até acontecer que não existam responsabilidades criminais pessoais, mas que as haja de carácter institucional. Mais uma razão para distinguir e não confundir tudo na sopa de pedra da responsabilidade política”.
No caso da triste história de Entre-os-Rios, ficas tu incomodado, fico eu incomodado, ficam as pessoas que participam no Fórum TSF incomodadas que – sabendo perfeitamente que houve uma salganhada de erros, de irresponsabilidade, de laxismo, de incompetências – a explicação que venha a público da parte do democraticamente legítimo e legitimado órgão JUSTIÇA seja “causas naturais”. Custa. Custa muito, admitamos. E é minha opinião que seria salutar que o processo deveria ter ido a julgamento, por uma questão de transparência, de escrutínio público.
Mas tenho que te dizer: mais criticável e bem mais importante que a decisão do juiz Nuno Melo é o facto de, neste caso, a responsabilidade de que o António Barreto fala não ter sido apurada. Porquê?
Por que é que o Estado e aqueles que têm a responsabilidade de pugnar pela sua transparência não se bateram pela efectiva averiguação dos responsáveis pela situação? Por que é que não foi instaurado um processo sério do qual resultasse um, quanto a mim, apaziguador relatório público – que não fosse mais uma daquelas merdas de livros brancos – que apontasse de uma forma verdadeira os erros cometidos, os rostos ou serviços implicados, o que falhou, o que poderia ter sido feito, o que não foi feito e porquê, sem receios, e que dessa forma permitisse gravar na memória e na consciência o que jamais deveria voltar a acontecer? Por que é que o Estado e todas as forças políticas da democracia se bastaram com a cabeça de um ministro e com a antecipação de indemnizações às famílias das vítimas?
Isto para mim é bem mais importante, caro Jorge: mais do que criticar uma sentença que não encontra culpa sob o ponto de vista penal, devemos criticar de forma responsável todo um aparelho de Estado e todo um conjunto de forças políticas que renunciaram ao apuramento das responsabilidades, directas ou indirectas, pela tragédia, sentando-se à sombra de um processo judicial que, como sempre, tinha poucas pernas para andar.

3. Agora, irrita-me e fico indignado na mesma medida quando ouço dizer que o juiz Nuno Melo é a peste (desculpa a apropriação indevida) de todo este processo, o homem que tinha a soberba responsabilidade de trazer justiça às vítimas, ao país e ao mundo e que, conscientemente, a isso renunciou de ânimo leve. Não consigo ouvir que o juiz Nuno Melo é um iníquo e incompetente porque a sentença é “a maior burla da história de Portugal”, que o juiz Nuno Melo é um “terrorista ao serviço dos poderes obscuros do Portugal anti-democrático”, que o juiz Nuno Melo “devia ter familiares na ponte porque então aí já iria decidir de maneira diferente”.
É a este tipo de crítica, a este tipo de miserável noção de intervenção democrática e de cidadania, de défice de massa crítica, que eu me referia. Julgo que me compreendes, até porque me recordo de ter lido um texto teu precisamente a propósito deste assunto. Todos, juristas, políticos, homens de enxada na mão, estudantes, sopeiras, prostitutas, todos têm o direito e devem indignar-se com o caso de Entre-os-Rios, todos têm o direito a emitir uma opinião, todos devem exigir um Portugal melhor e mais justo. Mas preocupa-me, amigo Nande, que eles não o saibam fazer, que não se saiba criticar em Portugal, que não se saiba discutir em Portugal. Que não se tente compreender os outros, que diga sempre as coisas mais fáceis, que atinja os outros com duas pedras sempre a situação nos desagrada, que não se procure saber mais sobre aquilo de que se está a falar. Porque, no fundo, a democracia é isto mesmo: tu formares a tua opinião e transmiti-la, seja através do voto, seja através de uma reunião, da rádio, de uma conversa entre amigos, de um texto. E em Portugal as opiniões formam-se de uma maneira preguiçosa, egoísta. E depois forma-se um círculo vicioso: vamos ter uma política também ela preguiçosa e demagógica, porque a massa crítica é reduzida, porque se valoriza o discurso fácil e sedutor, quase comercial, e depois lá estaremos nós outra vez a falar (lembras-te?) das realidades paralelas, uma cosmética e para consumo público, outra que nem por isso, etc...
Acho que já te disse uma vez: não acredito nesta democracia.

Sexta-feira, Março 26, 2004

Irrita-me

Irrita-me profundamente que as pessoas, sem saber do que falam, se ponham a dizer que é tudo uma grande vergonha, que é tudo um grande escândalo, e que a justiça portuguesa é terceiro-mundista, e que este ou aquele é um juiz irresponsável e terrorista. Falo, obviamente, na sequência do anúncio do arquivamento do processo da queda da ponte de Entre-os-Rios.

Muito bem que a decisão seja criticável. A Justiça não é exacta ou matemática. A esta distância, e com o conhecimento que tenho do processo, parece-me que a decisão ofereça dúvidas, mas não querendo dizer com isso que ela esteja irremediavelmente errada.

De tanto dizermos coisas irresponsáveis com toda a leviandade, de tanto reagirmos como se fossemos virgens ofendidas à procura de enforcar culpados no meio da praça, acabamos por perder toda e qualquer massa crítica. Porque criticamos com a mesma gritaria, sejam as coisas bem ou mal feitas.

Estou a ouvir o Fórum TSF e estou farto de ignomínias.

Quinta-feira, Março 25, 2004

Aqui (não) há Dato

Estão quase a perfazer 15 dias desde a última aparição da virgem Adeodato nos paços deste convento. Tendo em conta o recente ritmo de movimentação deste subtil cenobita, suponho que ele esteja para voltar a aparecer a qualquer momento...

O Carlos Queiroz é um Boi

Posso não concordar com todas as palavrinhas, mas o raio do texto é de certeza uma das mais bonitas declarações de amor ao futebol que eu já li.

Encontrei o link no Aviz, que explica a proveniência da carta. Acreditem que vale a pena.

Quarta-feira, Março 24, 2004

Gostava de ler a sentença

Para já, e antes de conhecer a sentença, não vou escrever muito sobre o assunto. Mas, ao ler na TSF um pouco sobre o desfecho do julgamento de Setúbal, estando em causa o processo relacionado com a morte de um jovem na Bela Vista em Junho de 2002, não deixo de ficar um pouco perplexo com as conclusões do Tribunal de Setúbal: tendo ficado provado que o polícia disparou deliberadamente contra o rapaz, não houve crime de homicídio e não há lugar a qualquer indemnização da família da vítima.

Terça-feira, Março 23, 2004

A Náusea de Cristo

Já falta um pouco a paciência. Sobre qualquer espécie de teorização, remeto para aquilo que escrevi anteriormente e para os posts do Aviz sobre o assunto. Mas não resisto a deixar aqui o relato do filme que ontem duas pessoas conhecidas me fizeram:

Pessoa conhecida que gostou do filme nº1: "Passei o filme todo a chorar. Uma coisa é ouvir e saber a história (ou estória, fica ao cuidado de cada um) de trás para a frente, outra coisa é ver à nossa frente o que foi todo aquele sofrimento. Chorei muito mas recusei-me a fechar os olhos. Quis ver tudo".

Pessoa conhecida que gostou do filme nº2: "É um filme fantástico. Ficamos a saber o que é sofrer pela humanidade, partilhamos todo aquele sofrimento. Senti na minha espinha as mãos a serem perfuradas, a pele a ser arrancada e o crânio a ser apertado".

Porra, perdemos definitivamente a noção de estética!?

Série B

Para quem gosta de cinema ou, simplesmente, do João Vaz e do Jorge Nande.

Segunda-feira, Março 22, 2004

A erosão da credibilidade

Juntamente com o Dato (já não me lembro da posição da Carla), defendi aqui, na altura em que os estudantes de Coimbra encerraram a cadeado as portas da UC, as causas por que eles então se batiam, se bem que ressalvasse que não concordava com os meios, apesar de os compreender em razão do estado de desespero em que tinham caído pelo facto de serem obrigados a lidar com uma opinião pública (muito) mais interessada na Casa Pia, no Euro 2004, nos salários da função pública, no Iraque, etc...

É este o fado dos estudantes: terem muitas e boas razões para se fazerem ouvir e reivindicarem da opinião pública e – por arrasto – dos governantes a atenção merecida para os seus problemas e, ciclicamente, acabarem por despertar essa mesma opinião pública não para a verdadeira dimensão desses problemas mas sim para os meios menos ortodoxos e inteligentes através dos quais pretendem fazer reproduzir a sua mensagem, acabando por fazer que aquela se dissolva completamente atrás daqueles.

Escrevo isto antecipando um pouco aquilo que pode acontecer depois de amanhã e, sobretudo, após ter conhecimento de sinais preocupantes de que continua a existir muito boa gente junto das altas chefias estudantis que continua a comprometer a credibilidade que seria desejável conquistar quanto antes:

1.Um representante de uma licenciatura requer junto dos responsáveis da AAC a utilização do auditório para a exibição de um filme no âmbito do programa de uma determinada cadeira para a noite do dia 24 de Março, dado a dificuldade de se encontrar uma outra data ou outro espaço para o mesmo – os responsáveis da AAC não só recusam o empréstimo do auditório como ainda, não satisfeitos, enxovalham o representante da licenciatura bem como todos os infames traidores que, livre e conscientemente, não pensam em acompanhar a peregrinação no sagrado dia 24 de Março...

2.Na RUC, ouço uma reportagem sobre uma manifestação de estudantes do ensino secundário que amanhã vai sair à rua em Coimbra – confrontado pela repórter sobre o que se vai passar e porquê, um dos responsáveis pela organização da manif limita-se a dizer que, de momento, “apenas pode anunciar que os estudantes vão cortar o trânsito sobre a ponte de Sta. Clara e que vai haver um enforcamento”...

Eloquente.

A relatividade do tempo

Quem passa regularmente na estação de metro dos Anjos deve perceber bem o fenómeno da relatividade do tempo: quem vai para o Cais do Sodré está no futuro (em 4 minutos) de quem vai para Telheiras. A primeira vez que reparei nesta situação estava atrasada para um encontro. Ia no sentido de Telheiras. Pensei: “Fixe, estou no espaço em que o tempo está atrasado. Assim não chego tão atrasada.” O pior é quando vou para casa, vou sempre mais tarde. O que terá acontecido debaixo do relógio do apeadeiro para Telheiras? A única coisa que me ocorre é a de uma falha na recuperação do tempo após algum Ed Bloom ter encontrado a sua Sandra.

Terça-feira, Março 16, 2004

A paixão do cinema

Já li muitas coisas sobre a “Paixão de Cristo”. E aquilo que li até agora não me seduz minimamente a ir ver o filme, que me parece – com a devida distância de quem ainda só leu sobre ele – concebido para vender, para chocar, para ser discutido.

Quase sem querer (procurava na página de cinema do Público o horário do “Lost In Translation”) acabei por ler meia dúzia de críticas enviadas por pessoas que já o viram e que, confesso, me deixaram com ainda menos vontade de o ver, pela previsibilidade que apresenta.

Acho que não o devia fazer (porque quem o escreveu pode não gostar), mas resolvi transcrever para aqui uma dessas críticas, que julgo ter o mérito de resumir a maioria daquelas que li nessa página e, ainda, de deixar evidente aquela que me parece ser a grande fórmula de sucesso do filme: mexe com qualquer coisa que, entre nós, é inatingível, inexplicável, misterioso, enigmático, onírico, e para muitos admirável, intenso, sagrado. Atenção que aqui, e na medida em que não o vi, falo no sucesso de procura do filme e no mérito que as pessoas lhe atribuem em virtude “mostrar tudo o que verdadeiramente aconteceu”.

Não importando para aqui qualquer juízo a propósito de crenças, quem idolatra Cristo, quem se identifica com a sua história, e com tudo o que cresceu à sua volta, nunca viu Cristo e a sua morte, só leu e ouviu sobre ele, só leu e ouviu sobre a sua vida e morte. Vê-lo e presenciar tudo isso no ecrã é uma paixão. A paixão do cinema.

É um excerto e os sublinhados são meus:

Decerto todos já conhecíamos a história, mas nunca ninguém ousou representá-la com realismo e frontalidade como Mel Gibson. Vi o filme, e durante as duas horas muita gente abandonou o cinema, o que não me surprendeu: ninguém gosta de enfrentar realidades que considera não serem suas. Se fosse mera ficção, todos fariam óptimas críticas, de como as cenas estavam bem feitas, de como se sentiam envolvidos na dor da personagem principal, de como os pormenores tinham sido bem explorados. Mas Cristo faz parte da nossa educação, daquilo que somos enquanto povo cristão; não é um personagem "a fingir". Por isso tantos se ofenderam quando viram o sangue que um homem deu por todos nós.

A escolha de Sofia


Uma das coisas sobre as quais normalmente evito escrever – porque julgo não ter grande jeito para o fazer – é o cinema. Desta feita, faço-o única e exclusivamente para contrariar o Dato: o “Lost In Translation” é um dos melhores filmes que vi ultimamente. Pela realização estética, pelos planos, pela luz, pela cor, pela sensibilidade, pela simplicidade. Pelo que diz e pelo que não diz.

De acordo

Raramente estou de acordo com o que o FNV, do Mar Salgado, escreve. No entanto desta vez, desde quinta-feira que não consigo deixar de o ler em concordância. De acordo com a ideia de que a ETA tinha aqui a única hipótese de não ser igual aos assassinos da Al-Qaeda: anunciando tréguas incondicionais e renunciando à força armada de forma permanente. Não tendo o feito, mesmo não tendo sido eles os autores do atentado, são, retroactivamente, assassinos iguais aos de quinta-feira. De acordo com a ideia, conjunta com o PC, que a Al-Qaeda só será a vencedora das eleições em Espanha se nós lhe atribuirmos essa vitória. Se aceitarmos que foi o medo que levou as pessoas a votar. Não foi. Em Espanha, o atentado de um bando de irracionais levou a um aperfeiçoamento do jogo democrático. Levou a mais votantes, levou a uma maior exigência sobre aqueles a quem democraticamente entregamos o nosso governo. E assim, derrotou a Al-Qaeda. É isto que temos que dizer.

Os ataques à democracia: da barbárie aos seus próprios líderes

Tem razão meu caro JPP

Os acontecimentos dos últimos dias levam-me, infelizmente, a dar razão em dois aspectos a Pacheco Pereira.

É verdade que a Al-Qaeda representa um perigo maior que muitos supunham. É verdade que o verdadeiro inimigo da Al-Qaeda, aquele que eles pretendem abater, é o modo de vida ocidental, a ideia de liberdade. Imperfeita mas liberdade.

Depois tem razão JPP quando afirma que há partidos políticos que gostam de nos fazer passar por parvos ou estúpidos. JPP dizia isso, há umas semanas atrás sobre o Bloco de Esquerda e um debate qualquer sobre o uso da cannabis na medicina. O povo espanhol disse isso mesmo ao PP ontem. Não gostaram que fizessem deles parvos.

É isso que aqueles que sempre apoiaram a intervenção no Iraque não percebem. Não percebem que a liberdade e a democracia não se defende com mentiras. Não percebem que não é manipulando o povo que fazem a apologia do sistema democrático. Para que se invadisse o Iraque bastou um centésimo das provas que existiam em Espanha sobre a ligação da Al-Qaeda. Ao tentar manipular as eleições espanholas, atribuindo inconsequentemente o atentado à ETA quando já não havia condições para o fazer, o PP fez com o regime democrático o mesmo que a Al-Qaeda fez com os atentados, ignorou-o, desprezou-o, minimizou-o. Só os métodos, felizmente e naturalmente, foram diferentes.

Não critico a ligação imediata dos atentados à ETA. Eu fi-lo imediatamente, e não apago o que escrevi, às dez da manhã de quinta-feira. E a razão é só uma, se não foi a ETA poderia ter sido. Pelo menos é isso que a sua história nos diz. Mas com o aparecimento das provas árabes só podia haver uma solução, havia que ser sincero.

Não foi o atentado da Al-Qaeda que alterou o jogo democrático em Espanha. Foi um dos seus maiores intervenientes, o PP, que não respeitou as suas regras. E por isso são os únicos culpados da sua derrota. Porque a um bando de bárbaros incivilizados não se pode pedir responsabilidades sobre um jogo que não jogam e que não percebem. A esses só se pode derrotar. Fazendo a apologia da democracia e guardando a espada unilateral da barbárie.

Segunda-feira, Março 15, 2004

A história repete-se mas esquece-se de alguns...

No dia de hoje, há 43 anos atrás, centenas de pessoas de nacionalidade portuguesa eram mortas num ataque terrorista concertado em território sob administração portuguesa. O ataque foi perpetuado a 15 de Março de 1961 por membros da UPA (União dos Povos Angolanos), uma organização independentista financiada pela Administração Kennedy e liderada por Holden Roberto, político angolano que há algumas semanas atrás exigia de Portugal uma compensação igual à divida de Angola para Portugal pelos anos de colonialismo…

No espaço de 15 dias 6000 pessoas, 1000 brancos e 5000 angolanos, foram mortos à catanada durante ataques surpresa às fazendas dos colonos portugueses no Norte de Angola. Os “terroristas” não poupavam mulheres ou crianças. As fotos da época retratam corpos de miúdos de 4 ou 5 anos com membros decepados e cabeças rachadas a meio. Os empregados negros das fazendas que não apoiassem os atacantes eram imediatamente mortos com igual crueldade.

Durante 5 meses muito mais pessoas foram mortas. A repressão desses ataques foi tão brutal como os próprios ataques. Dos dois lados todos deram razão à milenar ideia de que quem com a espada vive, com a espada morre.

43 anos depois esta lembrança tem dois objectivos:
- primeiro lembrar que a história se repete todos os dias enquanto os Homens não forem capazes de mudar o seu rumo. À ocupação pela força responde-se com a resistência terrorista. Da libertação pela força nascerá uma comunidade presa às armas;
- depois, homenagear 500 000 apátridas que vivem em Portugal. No Portugal democrático e livre de hoje, conquistado graças à coragem de muitos no 25 de Abril, os retornados de África são um tabu com que a sociedade não sabe lidar porque nunca os compreendeu. Para os portugueses de Portugal, África não era Portugal e os que de lá vieram não eram e não são portugueses. Para os portugueses que lá viviam e que de lá vieram, o Portugal continental era uma ideia que não lhes interessava, um país que nada lhes dizia. Hoje vivem 500 000 mil pessoas em Portugal sem nacionalidade. Desses 500 000 mil, os que viviam no Norte de Angola há 43 anos atrás são os únicos habitantes de Portugal que sabem o que é a experiência do terrorismo.

A propósito dos mais recentes posts do Nande

Meu querido: tenho gostado muito do que tens escrito ultimamente, apesar de reparar que o teu estilo anda um pouco inquieto. Queria dizer-te que a minha indignação tornou-se insustentável quando comecei a acreditar que poderia estar destinado a fazer alguma coisa por ela. Enquanto acreditei que nós – também eu e também aqueles que me são próximos e que também ousam acreditar – temos a responsabilidade de lutar por fazer mudar alguma coisa, o meu quotidiano tornou-se uma agonia constante, como aquela que agora (d)escreves.

Por agora, assumo o fugaz e insipiente conforto em que me coloquei recentemente (e os blogs, em certa medida, servem para lidar com isso com alguma ligeireza): conscientemente, esqueço-me daquilo em que acredito ou deixo de acreditar, imagino que não é nada comigo, que se passa tudo num mundo distante que não é o meu, que não reconheço, que não me toca, que não me choca, que não posso fazer mover.

Mas sei que um dia vou voltar a indignar-me. Espero que sim, desejo-o sinceramente. Não concebo a ideia de deixar de o fazer de uma vez por todas.

O Dato lembra-se: há não muito tempo, várias vezes houve em que nos atrevemos de forma diletante a sonhar mudar o mundo. Tenho saudades disso. Havemos de experimentar voltar a fazê-lo. Nande, talvez nos queiras acompanhar das próximas vezes...

O durão

Quando há uns dois meses atrás, o nosso excelso primeiro-ministro se lembrou de se deslocar ao congresso do PP espanhol e aí, entusiasmado e algo excitado com o fervor da multidão, declarar expressamente o apoio do Governo Português – sublinho, do Governo Português – ao candidato Mariano Rajoy nas eleições espanholas que se avizinhavam, comentei com alguns amigos que achava aquela uma das maiores barbaridades políticas de Durão Barroso nos últimos tempos.

Pese embora aqueles que então me ouviram acharem que eu estava a exagerar, mantive a minha ideia: qual a legitimidade de Durão Barroso para – em nome de afinidades políticas, amizade, confiança, perspectivas de convergência, ou outros interesses – declarar solenemente o apoio político, não da sua pessoa, não do partido a que preside, não da maioria parlamentar que dirige, mas do Governo de Portugal a um dos candidatos a primeiro-ministro espanhol?

E agora eis que, contra a grande maioria das previsões, chega a outra situação que então me incomodou: com que cara vai agora o Governo de Portugal relacionar-se politicamente com o primeiro-ministro espanhol Zapatero, enquanto que o seu candidato jaz derrotado sob a reacção popular face aos erros de gestão política do PP?

Bem sei que se trata de uma questão comezinha. E bem sei que as relações políticas entre os dois países não serão prejudicadas por isto. Afinal de contas, ainda há aquela coisa do sentido de Estado, não é?

Sexta-feira, Março 12, 2004

Quando a estupidez sufoca a tolerância

No decorrer do Fórum TSF sobre os atentados de Madrid, houve alguém que se lembrou de intervir para, depois de criticar alguns juízos efectuados por comentadores políticos a propósito dos acontecimentos, se dedicar a reivindicar o "direito português ao território de Olivença, ilegitimamente ocupado pelo reino de Espanha". Desliguei o rádio.

sem sentido

Ontem fui ver o filme polémico do momento, "A Paixão de Cristo". O sentimento face aos atentados e à morte banalizada do dia foi aprofundado.

Hoje ao entrar no edifício onde trabalho ouvi um enorme estrondo com um ligeiro tremor. É impossível não pensar que possa ter sido um ataque terrorista. Afinal, parece que foi somente uma bilha de gás que explodiu. Mas é claro o medo em que fomos colocados.

Todos os dias desloco-me para Lisboa de comboio. Hoje reparei que este estava ligeiramente mais vazio. Talvez fosse só impressão minha, talves estive mesmo mais vazio. Mas por detrás de ambas as coisas está o medo.

O Adeodato está farto, não consegue compreender.

Parece que tudo isto faz parte de um mundo à parte, surreal e sem sentido algum. A única resposta que inspire esperança que encontro é esta:

Ainda que eu falasse línguas,
as dos homens e dos anjos,
se não tivesse amor,
seria como sino ruidoso
ou como címbalo estridente.
Ainda que tivesse o dom
da profecia,
o conhecimento de todos
os mistérios e de toda a ciência;
ainda que tivesse toda a fé,
a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor,
nada seria.
Ainda que eu distribuísse
todos os meus bens aos famintos,
ainda que entregasse
o meu corpo às chamas,
se não tivesse amor,
nada disso me adiantaria.
O amor é paciente,
o amor é prestativo;
não é invejoso, não se ostenta,
não se incha de orgulho.
Nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse, não se irrita,
não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça,
mas regozija-se com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.
As profecias desaparecerão,
as línguas cessarão,
a ciência também desaparecerá.
Pois o nosso conhecimento
é limitado;
limitada é também a nossa profecia.
Mas, quando vier a perfeição,
desaparecerá o que é limitado.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Depois que me tornei adulto,
deixei o que era próprio de criança.
Agora vemos como em espelho
e de maneira confusa;
mas depois veremos face a face.
Agora o meu conhecimento
é limitado,
mas depois conhecerei
como sou conhecido.
Agora, portanto,
permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor.
A maior delas, porém, é o amor.


1ª Carta de São Paulo aos Coríntios, 13

PS: Peço desculpa se utilizo um blog colectivo ligando à religião. Se se é tão criticado actualmente pelas demonstrações públicas de fé, não quero deixar de pedir para que não se façam ligações aos restantes membros do blog.

Quinta-feira, Março 11, 2004

Quando a Morte deixa de fazer sentido.

O Sérgio pediu-me para o retractar. Já não acredita que tenha sido a ETA. Acha que não têm a marca da ETA. Acredita no dirigente do Herri Batasuna. Ainda bem que ainda acreditas em alguém.

Disse-lhe que não sabia quem tinha sido. Que nada faz sentido.

Li quem diz que foram os árabes. Li quem diz que só pode ter sido a ETA. Li quem diz que isto deu muito jeito ao PP e por isso...

Sinceramente, estou farto de ler sobre isto. Sobre o 11 de Setembro, sobre o Iraque, sobre o Sérgio Vieira de Mello, sobre Israel, sobre os palhaços deste mundo que matam quem se mata só para viver. Estou farto de mortes.

A Morte não se compreende, aceita-se quando é pacífica, mas nunca se compreende. Por isso assusta. Estou farto da Morte. Da Morte em directo, da morte que não é natural.

Seja em Madrid, seja em Nova York, seja em Nassíria, em Bagdad, seja em Port-au-Prince, seja em Bali, em Istambul, estou farto.

Seja quem for, BASTA YA!

Terror



Quer seja a ETA, ou a Al Qaeda, o qualquer outro grupo terrorista que tenha levado a estas mortes e a esta destruição, é mais um dia 11 terrível a juntar à história.

Covardia

Odeio a covardia. Possivelmente, não existe mais coisa nenhuma que eu odeie tanto. Eis a gloriosa história da ETA: 30 longos anos de covardia.

BANDO DE MERCENÁRIOS MENTECAPTOS

É de certeza este o nome de código da ETA.

Não consigo perceber. Não dá para perceber. O que é que ganham? Que é que lhes interessa dar a maioria absoluta ao PP com estes atentados? O que é que a morte de 60 pessoas perfeitamente normais defende?

Terça-feira, Março 09, 2004

Peço desculpa mas não encontro um bom título para isto

É um pouco triste que, por estes dias, o mais mediático e importante em termos políticos tenha a ver ou com as presidenciais de 2005 ou com as pueris e patéticas "trocas de galhardetes" (a expressão não é minha) entre o Dr. Soares e o Dr. Portas.

Quanto tempo falta mesmo para o Euro 2004?

As fases da lua

Face à simpática e eloquente resposta do nosso inteligentíssimo leitor Felipe Gomes, fui averiguar qual o colossal erro que eu e a Carla tínhamos cometido.

Mas, pelos vistos, podemos morrer descansados porquanto limita-se a ser uma questão de percepção.

Caro inteligentíssimo leitor: as fases da lua, como sempre pareceu natural para este pobre coitado, ocorrem efectivamente ao mesmo tempo não importando a localização do observador.

No entanto, existe uma percepção diferente dessas mesmas fases, consoante o observador se encontre no hemisfério norte ou hemisfério sul: o aspecto da lua é invertido em relação ao verificado no outro hemisfério.

Isto apesar das fases da lua, num determinado tempo, serem as mesmas para todos.

Caro inteligentíssimo Filipe Gomes, se o afrontámos na vossa incomensurável sabedoria e profundo esclarecimento, seja indulgente e aceite por favor as nossas humildes desculpas.

É sempre um distinto prazer ter gente tão nobre e resoluta a dispensar algum do seu precioso tempo na leitura dos nossos diletantes textos e na atenciosa correcção das suas monstruosas falhas.

Reverentes, estamos a vós eternamente agradecidos.

Segunda-feira, Março 08, 2004

Soneto de aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.


Vinicius de Moraes

A McDonald's e as crianças

A sensação com que fico quando vejo este tipo de notícias é de que uma extrema hipocrisia e hiper-tolerância grassa por aí. Tal como afirma o cparis, gostaria de saber o que acontecia se a McDonald's levasse as crianças deficientes às actividades do Euro 2004 em questão. Imagino que logo a acusariam de falta de senso, de irresponsabilidade em reconhecer as diferenças que as crianças menos capazes possuem que as impedem de participar de modo adequado nas actividades lúdico-desportivas. Qual é o medo de dar o nome à realidade e encará-la como ela é? Não me pareceu que neste caso se descriminasse as crianças pela deficiência, antes se procura dar as melhores condições aos participantes. Uma criança com dificuldades físicas e/ou mentais teria dificuldades em participar, muito provavelmente ser-lhe-ia prejudicial, e traria problemas ao natural desenrolar do programa. A integração e aceitação das pessoas deficientes também passa por aceitar as suas limitações, e não querer que façam e participem em tudo o que uma pessoa saudável faz e participa. É aceitá-las como pessoas, não como coitadinhos.

Quando as expectativas são muito altas

A desilusão acaba sempre por acontecer. Muito tempo depois da sua estreia, depois de muitas (boas) críticas ao filme e depois da cerimónia dos óscares, finalmente fui ver o Lost in Translation. E sinceramente a minha crítica ao filme podia resumir-se numa frase: É um bom filme mas próximo da vulgaridade.

A maior parte do filme é uma sucessão de lugares-comuns sobre a meia-idade de Bill Murray, (mais difíceis de detectar por estar longe dessa fase da vida) e sobre os problemas da transição entre a adolescência e a vida adulta de uma relação entre "malta nova". Destes últimos problemas o filme não trouxe nada de novo, não fez experimentar qualquer sensação desconhecida ou descobrir sentimentos novos. Tudo já se passou, muitas ou poucas vezes, mas já se passou.

É certo que ainda estou influenciado pelo revisionamento de "As horas" a semana passada, mas a verdade é que Lost in Translation perto daquele parece um filme com o Richard Gere e a Julia Roberts.

E depois há o "Virgens Suicidas", esse sim um filme absolutamente delicioso, novo, experimentador de sensações. Para mim a Sofia Coppola são as miúdas Lisbon, não a Charlotte de Tóquio. E dá para perguntar, queriam um óscar para o Bill Murray porquê?

Cedo numa coisa. A paixão platónica pela "belly" (tal e qual como a Maria de Medeiros as definiu no Pulp Fiction) da Scarlet Johansson tem toda a razão de ser...

Sexta-feira, Março 05, 2004

A vida de todos os dias pode ser uma coisa bastante complicada



Não sou fã de BD e muito menos conhecedora. Quem o seja, que me perdoe se me sair algo incorrecto. De qualquer dos modos, que vá ver a vida Harvey Pekar em filme.

Este senhor é um típico anti-herói americano, pessimista, deprimido crónico, resmungão, gordo e com uma careca, com um emprego chato, que vive sozinho e cuja casa é uma constante desarrumação, em que as colecções ocupam a maior parte do espaço. Até ao dia em que resolve mudar a sua vida e procurar deixar uma marca no mundo (a imagem acima retrata esse preciso momento). A sua marca. E escreve histórias para BD sobre o seu quotidiano. A revista, American Splendor, ganha sucesso, enquanto Pekar conhece a sua mulher, é chamado a programas de TV (passa a presença constante no Late night with David Letterman), passa por um cancro, passa por uma crise de identidade, ... Tal como a sua própria vida é uma mistura entre a sua realidade e ficção, também o filme o é. É uma espécie de BD-documentário-drama-comédia, em que as personagens desenhadas, as pessoas da realidade e as personagens do filme se cruzam na medida certa. Por falar nas personagens do filme, Paul Giamatti (Harvey Pekar) está genial! É a perfeita encarnação do estereótipo a que Pekar pertence.

Ao contrário do que já li por aí, não considerei o filme deprimente. Nada mesmo. Apesar do caos que Harvey e Joyce (a mulher dele) consideram as suas vidas, apesar das desventuras diárias, é apenas uma vida normal vista de uma determinada forma. Não é deprimente, é cómico.

Certezas

1. A McDonalds não gosta de miúdos defecientes nos seus anúncios publicitários.

2. Na Câmara de Lisboa não se leêm as cláusulas todas dos contratos que assinam.

Dúvida

As fases da lua são iguais em toda a terra? Por exemplo, se amanhã é lua cheia em Portugal, também o é na Califórnia?

Terça-feira, Março 02, 2004

A poesia das horas

Antes de conhecer o Dicion?rio do Diabo, conheci o In Mem?ria, um dos livros de poemas do Pedro Mexia. E gostei, como quem almo?a bem e recomenda o restaurante aos amigos. Depois, esqueci-me do Pedro Mexia poeta, e apenas lhe li as cr?ticas e a an?lise pol?tica e as prosas do dia-a-dia que publicava no blog.

Hoje, o Lu?s chamou-me a aten??o para um texto do Eduardo Prado Coelho sobre o Mexia poeta. E naquele texto, absolutamente in?til e improdutivo, encontrei-me de novo com a poesia do Pedro Mexia. Com a poesia sobre a banalidade da vida.

E ? perante essa banalidade que tudo o resto, para l? da poesia, me parece despropositado, in?til, sem interesse.

Como o passar das horas, ontem a rever o filme "As horas". A mesma poesia, agora film?ca sobre a banalidade da vida. E a no??o que para l? do sucesso, de todo e qualquer bem moral ou material, s? a poesia enquanto interpreta??o da banalidade da vida significa algo. E assim a vontade de ler Mexia e dizer ao Jorge que mais infeliz que a atribui??o do ?scar ao Gladiador em ano de Magn?lia foi a atribui??o ao Chicago em ano de As Horas.

Vondelpark


Segunda-feira, Março 01, 2004

Sabedoria milenar chinesa

UMA AZÁFAMA CONSTANTE

Os negócios não os deixam descansar
De noite fazem contas de dia galopam
A sua vida é uma azáfama constante
Desconhecem que sobre as suas casas o céu é azul

Tai Fu Ku (1198)
In Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro
Poemário - Dia 12.01.04

Amsterdam (II)

O energúmeno do costume (II)

Avelino Ferreira Torres, presidente da Câmara Municipal de Marco de Canaveses, está preparado para «repetir os acontecimentos ontem ocorridos». A determinada altura do jogo com o Santa Clara, Torres pontapeou a mesa do quarto árbitro.

«Não estou nada arrependido do que fiz ontem no estádio. Voltava a fazer hoje o mesmo mas agora gostaria de dar um pontapé não na mesa do quarto árbitro mas de quem fez as nomeações», assevera.

Avelino Torres não se mostra minimamente preocupado com a multa que poderá ser aplicada ao Marco. «O FC Marco já me tem ficado tão caro que é mais multa menos multa. Quanto a mim os senhores da Liga terão de olhar debaixo para cima porque sou maior do que eles e não sou dirigente desportivo».


A Bola on-line

O energúmeno do costume

O presidente da Câmara Municipal do Marco de Canavezes, Avelino Ferreira Torres, foi ontem o grande protagonista do jogo entre o Marco e o Santa Clara, da Liga de Honra. Pelas piores razões. O autarca irritou-se com o árbitro Nuno Almeida por este não ter assinalado uma alegada grande penalidade a favor da sua equipa, já nos minutos finais, e resolveu tirar satisfações, junto ao banco de suplentes, com o juiz. Mais tarde pontapeou material de apoio do quarto árbitro e no final voltou a entrar nas quatro linhas para protagonizar mais cenas lamentáveis - e por fim, já apaziguador, para escoltar Nuno Almeida, no caminho para os balneários...

Tudo começou quando o juiz algarvio deixou passar um presumível penalti na área do Santa Clara. No meio dos protestos, o massagista da equipa da casa recebeu ordem de expulsão. É então que surge junto ao banco de suplentes Avelino Ferreira Torres, gritando e gesticulando contra o árbitro da partida. O autarca - e ex-presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol do Porto - foi impedido de entrar dentro das quatro linhas por elementos da equipa técnica e também dois agentes da GNR, todos procurando serenar um Ferreira Torres de ânimos exaltados. Depois, ao passar pelo quarto árbitro pontapeou várias vezes material que pertencia a este.

Depois, retirou-se. Mas não abandonou as suas intenções de tirar satisfações com os homens que dirigiram a partida. Ficou junto ao túnel de acesso aos balneários e no final da partida entrou no relvado, dirigindo-se, imparável, ao local onde o árbitro e os seus auxiliares aguardavam que houvesse condições para recolher às cabinas. Esbracejando e protestando, Avelino Ferreira Torres procurou chegar-se novamente junto do árbitro, tendo sido impedido, por várias pessoas.


Jornal Público, 01 de Março de 2004

Óscares pois claro.

Quando pensava que finalmente conseguiria ficar a ver a TVI durante algumas horas sem me insurgir contra as habituais personagens que pululam nos estúdios da TVI, eis que até os comentadores da Noite dos Óscares conseguem passar uma ideia de mentecaptos absolutamente condizente com a estação.

Quando dois comentadores de cinema se insurgem contra as 11 nomeações do Senhor dos Anéis, ainda se compreende. Quando se insurgem contra as nomeações para os Óscares Técnicos começa-se a suspeitar. Quando dizem que a Rapriga do Brinco de Pérola (um excelente filme, por sinal), merecia o Óscar para a melhor direcção artística porque "isso era bom sinal para o óscar português" na categoria de fotografia, a coisa começa a ficar negra. Quando dizem que dirigir 25.000 figurantes não é nada de especial que é a academia... começam a ser mentecaptos. Quando finalmente dizem que o óscar para melhor animação foi para o Finding Nemo porque é a academia... uma vez que o "filme francês de culto, com uma personagem chamada Madame Souzá, em que se ouve um trecho de uma casa portuguesa, com certeza, eu que até entrevistei o realizador do filme (sic)" merecia o óscar de melhor animação, então só dá é para desligar a televisão.

Quando os pseudo-intelectuais dão numa de patriotismo balofo só falta dizer que a Branca de Neve devia ter ganho o óscar para melhor filme estrangeiro...